20/04/2011 12h20 - Atualizado em 20/04/2011 12h20
Brasil Afora: XV de Jaú e a aposta para voltar a atormentar os grandes
Famoso por revelar jogadores renomados, Galo da Comarca aposta em dois
jovens atacantes e no veterano Claudecir para deixar Terceirona do Paulista
Rodriguinho e Claudecir no XV de Jaú(Foto: Carlos Augusto Ferrari / Globoesporte.com)
Com o mercado inflacionado, o XV acabou obrigado a adotar uma postura diferente para contratar. A solução foi buscar jogadores experientes que já estavam com as chuteiras penduradas, como o zagueiro Andrei (37 anos), revelado no clube e famoso por ter sido agredido por Romário atuando pelo Fluminense, e o volante Claudecir (35 anos), ex-Palmeiras. Ambos participavam dos torneios de showbol. Juntaram-se a eles o zagueiro Du Lopes (30), ex-Portuguesa, e o centroavante Douglas Richard (38), ídolo da torcida.
- O XV tem uma boa estrutura. Eu não jogava há um ano e meio, e o presidente me convidou. Acho que o caminho para os times menores é esse mesmo. É preciso revelar jogadores, mas a experiência ajuda muito dando esse suporte – afirmou Claudecir, que, mesmo sendo volante, é o artilheiro do time na Terceirona, com seis gols em dez jogos. Depois do torneio, ele se transformará em gerente de futebol do clube – Andrei lesionou o joelho direito e não atua mais em 2011.
Os “vovôs” contrastam com a garotada. Grande parte do elenco é composta por jovens oriundos dos juvenis. Dois deles, aliás, enchem os olhos dos dirigentes como possíveis joias a serem negociadas após o estadual. Rodriguinho, atacante, 20 anos, usa o estilo moicano de Neymar nos cabelos e tenta pedalar como Robinho. Recentemente, foi observado por emissários do Atlético-MG e dificilmente ficará no clube no segundo semestre, mesmo que seja emprestado.
- Eu gosto muito do Robinho, que veio do futsal, assim como eu. Sou jauense e gostaria muito de fazer o XV subir. Nossa torcida é maravilhosa. Sonho em jogar em um time grande como o Santos, por exemplo, mas esse acesso seria muito importante – disse Rodriguinho, com os direitos avaliados em R$ 1 milhão.
Léo pode ser negociado com o Lyon-FRA (Foto: Carlos Augusto Ferrari / Globoesporte.com)- O clube tem uma estrutura espetacular. Nunca vi tantos campos daquele jeito. O Anderson me ajudou muito. Os outros brasileiros também foram legais comigo. Gostaria muito de jogar lá, mas, se agora não der, vou continuar me empenhando aqui no XV – afirmou Léo.
Apesar dos jogadores conhecidos, o XV de Jaú gasta pouco. Os maiores salários são das “estrelas”, mas não passam dos R$ 5 mil. Com os garotos, o montante é ainda menor, batendo na casa dos R$ 1 mil. A folha salarial, irrisória se comparada com as equipes da capital, é de pouco mais de R$ 60 mil, valor considerado relativamente alto para quem disputa a A-3. Para evitar gastos, o clube diminuiu ao máximo as concentrações em hotéis. Nas partidas em cidades mais próximas, os atletas viajam no dia do confronto e retornam imediatamente em ônibus fretado.
O dinheiro para sustentar o clube vem de colaboradores e do próprio bolso do presidente José Antônio de Oliveira, o Zé Construtor, empresário do ramo imobiliário. O XV também aderiu à estratégia de aproveitar todos os espaços no uniforme para a publicidade. São sete marcas exibidas por todos os cantos da camisa e outra no calção, o que rende cerca de R$ 25 mil mensais. A dívida, em torno de R$ 8 milhões, ainda atrapalha, na penhora de algumas rendas.
- Pagamos 26 ações trabalhistas e parcelamos a dívida. Todo o recolhimento do XV estava atrasado. Hoje, ninguém mais trabalha sem registro, nem o treinador. Mas precisamos revelar e vender jogadores. Ou então, estamos mortos. Nosso trabalho é para colocar o XV na Primeira Divisão e nunca mais cair. Claro, se os próximos presidentes forem honestos – afirmou o presidente Zé Construtor.
Do 'Buracanã' para o mundo
Buracanã, agora, mais conservado(Foto: Carlos Augusto Ferrari / Globoesporte.com)
- Não tinha grama. A gente rezava para não cair. Ou então, se ralava inteiro. Do lado do campo, havia uma ladeira e a bola caía toda hora lá. Era difícil, mas o XV formou muita gente boa aqui – afirmou o técnico Doriva Bueno, campeão paulista juvenil em 85 como jogador e júnior em 2005 como treinador pelo Auriverde.
O trabalho com os jovens abriu as portas do Oriente para o XV. O clube possuía um convênio com empresários interessados em desenvolver o futebol no Japão. Entre centenas de garotos que passavam pela base jauense, brilhou Kazu. Veloz e oportunista, o atacante foi o primeiro jogador japonês a atuar no Brasil, marcando até um dos gols da vitória do Galo por 3 a 2 sobre o Corinthians, em 1988, no Zezinho Magalhães. Depois disso, passou por Santos, Palmeiras, CRB e Coritiba, até chegar à seleção de seu país.
Aos 42 anos, Kazu mantém estreitas ligações com Jaú. Pelo menos uma vez por ano, visita a cidade para reencontrar amigos. No fim de 2010, chegou a treinar novamente no XV e negociou um possível retorno para encerrar a carreira no clube que o revelou. Entretanto, por ainda ter contrato, não foi liberado pelo Yokohama-JAP, o que pode acontecer em 2012.
- O Kazu é uma bandeira do XV. Gostaríamos muito que ele voltasse. Vamos ver se no ano que vem é possível – projetou o presidente.
Ao longo dos anos, o XV de Jaú ficou conhecido por atrapalhar a vida dos grandes. Em 1977, ano de seu retorno à Primeira Divisão, o Galo aprontou para cima do Corinthians. O Timão ficaria com o título e quebraria o jejum de quase 23 anos sem vencer o estadual, mas, antes disso, levou 3 a 0, no interior, em um jogo marcado por invasão de gramado de torcedores alvinegros e verdadeiras rasteiras dos policiais para contê-los.
Em 85, o Palmeiras precisava de uma simples vitória em casa para ir às finais do Paulistão. No entanto, o XV surpreendeu e derrotou o Verdão por 3 a 2, no Palestra Itália, deixando o caminho livre para o São Paulo levar a taça. Já em 96, em seu último ano na elite, o Galo aprontou outra vez. O Santos brigava com o Palmeiras pelo caneco, mas um revés por 2 a 0, em Jaú, colocou o Alviverde muito próximo do título.
Dimas 'expulsa' árbitro; Nestor humilha Jair da Rosa Pinto
As histórias em torno do desempenho do XV nos anos 50 são inúmeras. Em uma delas, em 54, o atacante Nestor teria sentado sobre a bola depois de uma série de dribles sobre o lendário Jair da Rosa Pinto, vice-campeão mundial em 50. De quebra, ainda fez dois gols na vitória por 4 a 2. Mais tarde, o Galo receberia a “Taça das Goleadas” por ter o ataque mais positivo em duelos contra os times da capital e da baixada santista. Na temporada anterior, o Galo foi o primeiro clube do interior de São Paulo a atuar no Maracanã em um empate por 4 a 4 com o Flamengo.
Já em 86, um fato pitoresco ficou marcado para sempre na história do futebol. Revoltado com algumas marcações na derrota por 2 a 0 para o Corinthians, no Pacaembu, o volante Dimas arrancou o cartão vermelho das mãos do árbitro Antônio Carlos Saraiva e o “expulsou”. Hoje advogado e vereador em Santa Cruz do Capibaribe-PE, o ex-jogador recorda o momento.
- Ele dava um tratamento diferenciado. Para os jogadores do Corinthians, justificava todas as faltas que dava. Para os do XV, só xingava. No segundo tempo, se confundiu ao expulsar o Níveo e não o Vanzella. Eu vim por trás e tomei o cartão da mão dele com a intenção de dizer que ele era ladrão. Depois, fiz o gesto com os braços de como se estivesse mandando o árbitro para fora, joguei o cartão no chão e ele veio atrás. Como não havia nada previsto no código, fui suspenso somente pela expulsão. E o Saraiva parou de apitar de tanto ser lembrado por isso (risos) – contou Dimas, por telefone.
Guanxuma faz o gol do primeiro acesso do XV de Jaú em 1951 (Foto: Divulgação)A má fase começou a partir de 90. Com muitos clubes na elite, a Federação Paulista optou por criar em 1994 a chamada Série A-2. Por causa da má campanha em 93, o XV foi rebaixado, mas conseguiu retornar em 95, graças ao técnico argentino José Poy, idolatrado na cidade por ter dirigido a equipe em uma cadeira de rodas na fase final. Entretanto, com outro velho conhecido, Cilinho, o Galo voltou a cair em 96. A partir disso, com erros administrativos, despencou para a A-3 em 97. Em 2006, retornou à A-2, mas, dois anos mais tarde, foi rebaixado para a Terceirona novamente.
José Poy dirige o XV em uma cadeira de rodas na temporada de 1995 (Foto: Divulgação)- O XV sobe ainda este ano e não cai nunca mais – prometeu o presidente.
Torcida Galunáticos viaja com o XV para todos os jogos (Foto: Carlos Augusto Ferrari / Globoesporte.com)
Nenhum comentário:
Postar um comentário