03/05/2011 08h04 - Atualizado em 03/05/2011 09h43
Brasil Afora: com irmão de Willians, Léo e Puyol, Barça-RJ torce por xará
Enquanto o Barcelona famoso luta por vaga na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid, 'primo pobre' ainda busca Terceirona e local para treinar
Barça carioca torce para o 'primo rico' no jogo contrao Real (Foto: Alexandre Durão/Globoesporte.com)
Fundado há 11 anos em homenagem ao Barcelona original, o homônimo carioca segue buscando inspiração no clube catalão. Tanto que, na tarde da última quarta-feira, o treino para o início da segunda fase da Terceirona foi interrompido para que os jogadores pudessem assistir ao primeiro jogo da semifinal da Champions. Assim, enquanto Messi calava o Santiago Bernabéu com os dois gols da vitória sobre o Real, em Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio, os jovens da equipe homônima estavam vidrados na TV tentando encontrar palavras para descrever a magia do melhor jogador do mundo.
A vibração de Puyol (E), Léo (encoberto) e Silas (D), irmão de Willians, é intensa com os gols de Messi nos 2 a 0 sobre merengues na primeira semi da Champions League (Foto: Alexandre Durão / Globoesporte.com)Baixinho como o craque do Barcelona e da seleção argentina, Léo é a principal aposta do Barça carioca. Aos 18 anos - completos no último dia 29 -, ele batalha desde criança pelo sonho de ter ao menos uma ponta do sucesso de Messi. E o caminho nunca foi fácil. Com oito anos, deu os primeiros pontapés em Paciência, onde morava. Mas tinha de dividir seu tempo com o trabalho. Para ajudar em casa, vendia picolé no trem, e nas horas vagas, corria atrás do objetivo de jogar bola. Após a morte da mãe, vítima de Aids, o garoto não desistiu e, sozinho, continuou a saga de testes em vários clubes até conhecer Júnior. Coordenador da base do Barcelona, o treinador não só deu uma oportunidade para Léo dentro de campo como o acolheu em sua casa. A partir daí, a vida do menino que tinha tudo para dar errado começou a mudar. Hoje, ele cursa a oitava série em uma escola municipal no bairro de Realengo e já consegue vislumbrar um futuro melhor.
Léo, 18 anos, é a principal aposta do Barcelona carioca (Foto: Alexandre Durão / Globoesporte.com)E Léo não está mesmo sozinho. No elenco do Barcelona, que é formado por jovens entre 18 e 24 anos vindos, em sua grande maioria, das divisões de base, há muitas histórias parecidas. Alguns já até passaram fome e hoje têm uma vida mais digna graças à ajuda de custo que ganham do clube com a condição de manterem os estudos em dia. Alguns trabalham, e por isso, não podem comparecer aos treinos realizados na parte da tarde.
Nem mesmo para Silas, irmão do volante Willians, do Flamengo - que na partida contra o Horizonte, pela Copa do Brasil, fez um gol para muitos à la Messi -, as coisas são fáceis. Um dos mais velhos, o atacante de 23 anos mora com dois companheiros de time em Seropédica, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e encara viagens diárias para treinar. Mas a disparidade de fama e salários não chega a incomodar o caçula da família natural de Praia Grande, em São Paulo.
Silas, irmão de Willans, do Fla, tem 23 anos e mora com dois companheiros do Barcelona em Seropédica. Jogador encara viagens diárias para treinar (Foto: Alexandre Durão / Globoesporte.com)Já na defesa, o nome do Barcelona carioca também é Puyol. Batizado de Rodrigo, o zagueiro carrega o apelido famoso desde os 13 anos, quando defendia o São Cristóvão e possuía uma vasta cabeleira. A alcunha pegou e, segundo ele, pode render boas oportunidades no futuro.
- Gosto do apelido por se tratar de um bom jogador como o Puyol. É o capitão do Barcelona, ídolo mundial. Admiro a garra e a determinação dele, a vontade como chega nos adversários. É bom ser lembrado por um jogador tão reconhecido. Costumo dizer que somos dublês do Barcelona - brincou.
Mas o ídolo de Puyol não está na Espanha. O zagueiro que inspira o garoto é o brasileiro Thiago Silva, do Milan. Coincidentemente, o ex-jogador do Fluminense também passou pelo Barcelona carioca e rendeu R$ 125 mil ao clube com a transferência para o futebol italiano. A diretoria, no entanto, acha que deveria ter recebido uma quantia maior.
Batizado Rodrigo, Puyol leva o apelido desde os13 anos (Foto: Alexandre Durão/Globoesporte.com)
Com o dinheiro recebido por ser um dos clubes formadores de Thiago Silva, o Barcelona pretendia comprar um terreno para construir o próprio CT. Sem uma ‘casa’, o clube que tem sede administrativa na Taquara, Zona Oeste do Rio, e manda seus jogos no estádio do Mesquita, na Baixada Fluminense, gasta R$ 200 por dia de treino com o aluguel do campo em Honório Gurgel e conta com a ajuda da Prefeitura, que cede um espaço com piscinas em Deodoro para as atividades físicas. O sonho do centro de treinamentos não morreu, mas, para isso, é preciso fazer caixa com a venda de jogadores, uma vez que o único patrocinador do clube, uma empresa médica, só contribui fornecendo ambulância para os jogos e realizando os exames dos atletas.
- Perdemos um atacante de 20 anos, que era a esperança do clube, o Larsen. Ele foi chamado para trabalhar como modelo e o liberamos. Agora, Léo e Silas são os destaques. O objetivo, não tem jeito, é vender jogadores. Os que ficam, quando acaba o campeonato, voltam aos juniores. Sabemos que é difícil encaminhar todos, mas quatro ou cinco vão vingar com certeza. Dando um rumo à vida desses garotos já estamos fazendo uma coisa boa. Enquanto houver sonho, algo de bom pode acontecer - disse Augusto.
E os sonhos agem como combustível no dia a dia do Barça do Rio. No futebol profissional desde o ano 2000, o clube parou suas atividades por duas vezes, em 2002 e 2004, por falta de verba. As contas, hoje em dia, fecham mensalmente graças ao bolso dos próprios dirigentes e à ajuda de amigos e parceiros. Para mudar esse panorama de incertezas, o clube busca ajuda naquele que é responsável pela sua existência: o Barcelona da Espanha. Um dos diretores, Marcos Seixas, foi à Europa encontrar o presidente da equipe catalã, Sandro Rossell, e lhe entregou uma camisa do postulante à filial brasileira. Segundo relatos, o mandatário ficou feliz por saber que seu clube tem um representante do outro lado do Oceano Atlântico.
Agora, após esse contato, o objetivo é conseguir algum tipo de ajuda do “primo rico”, que soma 20 títulos da Liga Espanhola, 25 Copas do Rei, três Ligas dos Campeões e um Mundial de Clubes da Fifa. O time carioca, por outro lado, não tem títulos para ostentar, mas encontra na luta de seus atletas um valioso troféu para se orgulhar.
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